"Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei."

Veredas em Patis (MG)

O título desse texto é uma frase do livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. A partir dessa parte, Riobaldo contará ao doutor, seu interlocutor, sua vida, começando por um episódio que se deu nos seus quatorze anos. Muito do que se desenrolará na história começa a ser entendido a partir dessa passagem. 

Isso porque é o momento da vida que Riobaldo conhece Diadorim, ainda menino, amor de sua vida. Na travessia de um rio. O amor, assim como tudo mais que se passa no romance remete a isso: travessia. É essa a palavra que fecha o livro. 

Travessia. Lembra outra, de som similar: travessura. A vida, com suas travessias e travessuras me levou às margens do Velho Chico. Vim morar por essas bandas de Minas, esse sertão gerais a fora a dentro em 2016, quando me tornei professor na Unimontes, universidade estadual que atende a 14 localidades nos vales do São Francisco, Jequitinhonha e Mucuri, a maior universidade pública em número de unidades da região.

Existe sim uma relação íntima entre o sertão que Guimarães Rosa narra em suas obras e o sertão real, menos violento que o dos tempos das narrativas, mas nem por isso pacificado. A toponímia, as cores do cenário, o falar das pessoas, a cultura do gado e dos sertanejos. Hoje mesmo, voltando de Januária, cruzei com bois sendo levados de caminhão, e uma rês desgarrada correndo estrada a fora, parando pálida diante de minha moto, pronta para a chifrada (que por sorte não se deu).

Quando se percorre esses trechos de moto vê-se os bois buscando o pasto ralo na seca que se estende de março a novembro, e depois no pasto verde de novembro a março. Além disso, pelas muitas estradas asfaltadas da região, é comum vermos os buritis, os buritizais verdejantes plantados dentro d'água. É comum vermos cobras pelos caminhos, gaviões no meio da estrada. Uma viagem e tanto e com um roteiro que ainda farei: passar pelas cidades que aparecem no romance, numa "Rota Grande Sertão: Veredas", que venho desenhando aos poucos.   

Entrada da APA Peruaçu (MG). 

Dentre os caminhos do sertão, ficam algumas dicas. A estrada de abertura do sertão, entre Sete Lagoas e Curvelo, passando por Cordisburgo. Pode-se, de Curvelo, seguir tanto para Diamantina pela Estrada Real quanto para Montes Claros via BR 135. São dois caminhos muito diferentes, mas que cabem um bom roteiro se se seguir até o Rio São Francisco por Januária, e voltar por Itacambira. São muitos cenários diferentes a se ver numa mesma viagem. 

O roteiro que mais faço é o que liga Montes Claros a Januária. A Lôra, minha Royal Enfield Interceptor 650, veio para ser a moto de trabalho, pois preciso sempre me deslocar entre essas duas cidades já que trabalho em ambas. Por isso, o primeiro destino depois de chegarmos em casa (eu e a Lôra) foi a ida a Januária para a moto receber as bênçãos do Velho Chico. 

Cais de Januária (MG). Ao fundo, o São Francisco.

A origem do nome Januária tem explicação em duas histórias. A primeira é a de que o Imperador D. Pedro II deu à cidade portuária do Chico esse nome em homenagem à sua filha, a Princesa Januária, irmã da Princesa Isabel. Isso porque, numa missão imperial, o intendente de D. Pedro ficou impressionado com o lugar e com a recepção que teve por um fazendeiro. Como o lugar era de domínio da vila de São Romão, o fazendeiro foi elevado a Barão, o Barão de São Romão, e sua região batizada com o nome da princesa. 

A outra é a de que uma escravizada havia fugido e se instalado no porto do Chico, construído um comércio que acabou por virar um arraial. Januária, a moça, ficou famosa na região, em especial entre os barqueiros que cruzavam o Chico no roteiro entre Pirapora e Juazeiro. 

O que importa é que Januária é uma cidade-cais que não mais recebe navios. Em tudo há a saudade dos tempos dos barcos que subiam e desciam o rio, os vapores. Do tempo dos vapores sobrou uma embarcação, o Benjamin Guimarães, que visitou Januária pela última vez em 2006. Hoje, o vapor Benjamin Guimarães segue aportado em Pirapora e não desce o rio até Januária. 

A cidade, então, é um lugar de travessias. É preciso atravessar o rio para chegar a Januária. É preciso, depois de cruzar a ponte, percorrer ainda 10 km entre o cerrado para se chegar à Januária, e cruzar a cidade para cegar ao cais. Uma vez no cais, na mureta, é possível ter uma noção real do quanto o rio São Francisco secou nos últimos anos, já que as águas beijavam o muro. 

Rio São Francisco. Itacarambi (MG)

O Chico, há muitos anos, não beija o cais. Não a ponto de se poder pular nele da mureta. É assim que os barranqueiros se referem ao Chico quando chega perto, na cheia. Um rio que beija o cais. Um rio que, majestoso, vem humilde beijar os humanos. Um rio que dá tudo a todos os barranqueiros. 

Bonito de Minas (MG)

A Lôra foi até a mureta do cais. Atravessamos o rio, subimos a serra, cruzamos o Brejo do Amparo e fomos até Bonito de Minas, entrada para as cachoeiras do Catulé. É possível, de moto, ir a todos esses lugares. Outro lugar que fomos foi à Itacarambi, em outra viagem, feita esse fim de semana. Fomos ver o cais de Itacarambi, cidade que divide com Januária a Área de Proteção Ambiental (APA) do Vale do Peruaçu. O Peruaçu reúne nove cavernas abertas à visitação, que merecem mais de um dia de parada. 

Cada ida à Januária é uma novidade, mas a Lôra se habitua. Cumprimos nesse intervalo já 2400 km. Está mais econômica, mais equipada e pronta para conhecermos outras paragens. Porque no percurso entre Januária e Montes Claros já passamos por Mirabela, por Lontra, por Japonvar e por Patis. Falta ainda entrar no trevo para Coração de Jesus e São Francisco. E falta, talvez, trocar os pneus por pneus multi-estrada, para podermos, juntos, voltarmos ao Peruaçu, irmos até o Catulé e conhecermos a planície alagável do rio Pandeiros, a segunda maior planície alagável do Brasil. Assim a Lôra vai, aos poucos, se acostumando a mim.  



Comentários

Postagens mais visitadas