A primeira moto
Essa foi minha primeira moto. Ganhei de Natal/Aniversário, como a maior parte dos presentes ganhos por quem cismou de nascer no último dia do ano. Com essa moto eu viajei para lugares impossíveis, estradas de muitos tipos, terrenos variados que só na mente daquele menino eram possíveis de existir. A moto perdeu os bancos azuis numa floresta longínqua, o guidão azul numa estrada de ardósia, perdeu o motoqueiro titular, um bonequinho de plástico, para ser minha por toda a vida.
Mais de trinta anos depois (porque quando essa moto chegou eu devia ter uns 4, 5 anos de idade) ela segue aqui, vendo outras motos, maiores, seguirem por estradas menos encantadas. Essa moto é um ponto de conexão com o mundo. Primeiro com o mundo que me leva às motos: o da infância, no qual a viagem não tinha limite preciso. Era possível estar em todos os lugares e cenários, nas estradas de ardósia, de cerâmica, das linhas de uma colcha que cobria a minha cama na infância.
Depois dela, veio um quadro de motos numa competição de motocross que ficou por toda a infância na parede ao lado da cama. O quadro foi jogado fora, eu acho, por meu pai, numa das mudanças pelas quais passou o quarto nos anos 90. Mas vieram figurinhas de um álbum que nunca tive, desses de colecionar fotos de motos pelo mundo, com fichas técnicas que não entendia nada, mas que colava na minha gaveta.
Todas as bicicletas que tive foram um pouco as motos também. Porque, em essência, é o que as motos são: grandes bicicletas. Os modelos estranhos e diversos - uma Caloi Cross 1980 e tantos, uma Caloi Barra Forte, uma de marca desconhecida que seguiu comigo até acabar, uma Caloi que me roubaram e minha atual Monark Ipanema vermelha. Cada uma das bicicletas tem um nome e em cada uma a essência da primeira moto e o sonho do transporte pelo mundo, sozinho.
As motos chegaram mesmo muito mais tarde. Passei a juventude sem dinheiro para ter/manter uma moto. Depois de um acidente que me comprometeu o pescoço, havia também o medo de se ter uma moto e a minha aversão aos carros - o tamanho sempre agigantado, a dificuldade em parar, etc. Esses fatos adiaram por muito tempo os planos da carteira de motorista. Além disso, a carreira retardou ainda mais o plano. Era sempre preciso resolver algo antes: a graduação, o mestrado, o doutorado, o emprego.
Há pouco tempo decide pelo plano. A carteira, mas pela e para a moto. E tudo se coincide, sabe-se lá por que força do inconsciente, com a chegada da minha primeira moto à minha casa, o lugar onde estou lotado hoje depois das quatorze casas por que passei desde que saí aos 18 anos de BH para estudar. Trouxe os brinquedos de volta, aqueles que guardei por carinho, para dar, sei lá, para um filho que não pretendo mais ter. A moto, a primeira, chegou, e as outras chegaram em seguida.
Desde o ano passado, uma Virago 250, Chérie, ocupa minha vida e minha garagem. Depois dela, desde janeiro de 2021, a Lôra, que abre este blog, está no meu todo dia. Com elas me lancei ao mundo com a mesma carga de alegria que tinha quando tirava a moto de brinquedo da gaveta para brincar pelo apartamento onde cresci. As motos trazem consigo esse jeito infantil de acreditar que o mundo cabe na palma da mão, que as estradas estão para ser percorridas e que cada saída traz um universo de aventuras. No fundo, esses dois universos se misturam.


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