Sobre o blog - nossa vida com as máquinas

As máquinas nos seduzem. Talvez porque sejam os primeiros contatos que temos com algo próximo do domínio da criação. Porque há algo de divino nas máquinas: fabricamos, com base na vida, algo que possa ajudar na vida, recriá-la. Uma vida explosiva, que aquece o mundo e ocupa o espaço, que nos cerca por todos os lados e nos mantém próximos da atividade do criar.

Dentre as máquinas que criamos, os veículos de locomoção sejam, talvez, aqueles que nos causam maior fascínio. Primeiro porque simbolizam a diminuição do espaço. Um carro, desde suas versões mais antigas, movidas à tração animal, facilitava em muitas medidas a vida daqueles que precisavam, além de se deslocar, transportar pessoas e objetos. Não por acaso, o carro é uma das cartas do tarô, uma das formas mais antigas da humanidade de passar conhecimento e tentar acionar o simbólico a fim de definir futuros e passados de seres, pensando ser possível decifrar o invisível. Locomover-se de forma mais simples, menos danosa ao corpo, ir e vir de lugares sem, necessariamente, usar o lombo de um animal para tal tarefa.

A experiência de veículos que não dependiam de tração animal ou humana se alargou muito com a navegação à vela, aprofunda-se com a sofisticação cada vez maior das carroças de transporte de pessoas e coisas, fascinou o mundo quando surgiu a locomotiva a vapor (talvez o mais importante veículo construído da modernidade), chegou aos carros automotores, às bicicletas, aos submarinos atômicos, aos transatlânticos movidos a diesel, aos aviões, aos ônibus espaciais. Neles, sempre a preocupação coletiva de transporte de pessoas e coisas.

Dentre essas máquinas, uma chama minha atenção desde sempre. Ao invés de carregar pessoas, carregava inicialmente um indivíduo. Nem que fosse com sua própria força. Nesse sentido, a bicicleta é a mãe dos transportes mecânicos individuais. Diferente do transporte de coisas e pessoas, as bicicletas queriam levar os indivíduos, nada mais, de um lugar ao outro. Foram criadas para facilitar a vida de uma pessoa e não de um grupo; para estar a serviço do eu e não do todo. Substituir, em certa medida, o andar a cavalo, o transporte em um único animal, tão antigo quanto a humanidade, mas focado nas máquinas, lembrando o deslocamento individual pelo mundo.

Dela para as motos foi um avanço dos últimos séculos. Surgida ainda nos fins do século XIX, a motocicleta é, das criações de transporte, talvez a mais singular. Porque, primeiro, carrega consigo o espírito da modernidade: preocupa-se com o indivíduo, é um desenvolvimento tecnológico altamente sofisticado que atende às necessidades de uma pessoa. É um esforço coletivo complexo que envolve inúmeros setores das cadeias produtivas para criar um bem de transporte que não atende à coletividade de pronto. Não é uma máquina feita para levar cargas e movimentar a economia. Também não é uma máquina que levará a família moderna aos lugares de seu interesse (sejam o do lazer ou o do trabalho). Nem mesmo uma máquina de voo unitário, com o menor prejuízo militar – como os caças – (embora tenha sido usada como arma na guerra). É basicamente um esforço coletivo para um usufruto de uma, no máximo duas pessoas. Uma solução inteligente para uma sociedade que, desde o advento da modernidade, tem-se tornado cada vez mais individualista.

Depois da fabricação das motocicletas, uma série de máquinas resumem esse esforço coletivo em prol dos indivíduos. Cada vez mais os carros são pensados menos para a coletividade e mais para o motorista. Os celulares são aparelhos desenvolvidos e fabricados para os indivíduos a partir de um conjunto complexo de relações coletivas. As motos e as bicicletas são as pioneiras desse movimento.

As motos são a outra ponta  na linha das utilidades das máquinas de transporte terrestre modernas. Assim como as locomotivas, são todas feitas em aço. Mas, no seu completo oposto, não demandam demasiado espaço, cabem em qualquer canto, não precisam alterar-se estradas, criar para elas rodovias, dispensam, em muitos casos, cômodos muito grandes para seu armazenamento. Atendem aos indivíduos. Levam-nos para o mundo. Talvez, por isso, nossa relação com as motos seja a de intimidade. Porque as motos são individuais, confidentes. Únicas companheiras num trajeto que, via de regra, é pensado para o transporte de multidões de pessoas e cargas. 

Esse amor à individualidade, à cumplicidade nessa relação corpo-máquina é o que motiva os textos desse blog. Diferente de um blog de motocicletas que se preocupa com a informação utilitária - apresentar detalhes das máquinas, seus melhores desempenhos, etc - este blog se preocupa com as sensações. Tem por foco central a tentativa de passar para quem o ler a experiência das viagens, da vida em movimento, na relação com as máquinas para além das meramente reduzidas às do deslocamento. Afinal, a vida é um deslocar-se. Um mover de um lugar de origem a um de fim, mesmo que seja dentro do mesmo quarto. No caso desse blog, é a relação íntima na estrada, as sensações de vida que a estrada carrega. E claro, aqui e ali se dedicar às motos e suas especificidades. No mais, é mesmo só uma viagem, mais uma. 

Comentários

Postagens mais visitadas