O natal de 2020 e a Royal Enfield

 É um presente de Natal. Desses que se espera por anos, acompanhando e estudando em detalhes. Um presente de Natal assim como a primeira moto, a de brinquedo, foi um presente de Natal. Na mesma cidade em que a primeira moto me foi dada como presente de Natal. Com a mesma sensação de passar pelas ruas naquele natal entusiasmado e feliz, cheio de planos.

É bom situar os fatos. Antes, muito antes desse presente de Natal de 2020, uns anos antes, resolvi, enfim, tirar do papel a ideia de comprar uma moto, tirar carteira, essas coisas que adiei pela vida por conta das urgências da hora. Já havia lançado os livros que queria até então, conquistados os títulos pelos quais estudei feito louco e quase enlouqueci, adiado desejos de juventude em nome daqueles sonhos de carreira e estabilidade. Deixei a moto para depois e havia chegado o depois, ainda no ano de 2016. 

Tudo só foi possível depois de terminar a primeira grande estrada, que começou em 2000 no início da graduação e terminou com a defesa do doutorado e a posse como professor universitário em 2015. Em 2016, ano em que a nova vida enfim começou, precisei ainda gastar uma grana outra vez com mudanças, com móveis, com eletrodomésticos, montando pela enésima vez uma casa. Depois de tudo isso concluído, havia espaço para pensar na moto. 

Mas como começar? Por onde, já que o que existia era só amor puro, desejo disforme e pouquíssima informação? Havia um universo que parecia comum aos amantes de motos e que a mim era alheio, como deve ser para a maioria deles os meus amores e informações sobre poesia. 

Passei então por longa pesquisa. Pesquisa informal, sem rigor científico, movida pela curiosidade de um apaixonado. Nada de artigos científicos, teses de doutorados, milhares de fichamentos. Uma pesquisa que seguia um caminho de se conhecer um vocabulário, quase como aprender um novo idioma. E junto com o idioma veio toda uma cultura, cheia de suas subcamadas, dividida por muitos lugares e estilos, mas movidas pelo caminho comum do amor às motos. 

Há nesse universo e no universo literário alguma similaridade. Ambos são universos de técnica: a escrita técnica de um verso, a construção técnica de  uma máquina. Como saberes técnicos, cada qual carrega consigo seu diálogo com uma tradição específica, com um estilo comum e com a apreciação estética do produto final, mesmo que analisado parte a parte. Da mesma maneira que um crítico literário apresenta as múltiplas partes de composição de um poema, suas interpretações e funções no todo significativo do texto, um apaixonado por motos o faz ao apresentar uma máquina, lembrando que cada elemento, mesmo que milimétrico, é importante ao todo significativo da moto. 

Outro elemento comum é o valor do som. Os poemas, sobretudo, possuem sua beleza em uma combinação fina entre a forma que possuem, os sentidos que evocam e o som que produzem. A soma desses elementos, guiado pelo ritmo cadenciado dos versos, é que leva à fruição estética e ao pensamento e discussão que um poema exige. Com as motos se dá o mesmo. Há uma voz a ser ouvida, um ronco a ser escutado, emitido dentro de variantes rítmicas que alteram de moto para moto, de estilo para estilo, de formato para formato. O inconsciente poder do som que comunica sem signos, como o som assonante em um verso. O que seduz, tanto nas motos como nos poemas, é o prazer que fruímos do ritmos de seus sons, mesclados à beleza de sua forma e dos detalhes composicionais que fazem de cada um único e irrepetível, podendo ser sentido só no momento exato de contato com eles.   

Descoberto esse outro universo, começou a pesquisa pelo estilo de melhor agrado. E como estudioso há anos da poesia dos primeiros anos do século XX, da poesia com marcas fortes de modernidade, meu amor às máquinas não seria outro senão aquele que me transportasse, de alguma forma, para os elementos estéticos da época poética que tanto me seduz. 

O Manifesto Futurista, de Fillipo Marinetti, ficou famoso naquela época por defender que as artes deveriam mudar seu foco e dar ênfase a esse mundo tecnológico que surgia na aurora do século passado. Uma de suas passagens mais famosas diz que "um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia". Essa beleza se estende para as motos daqueles primeiros anos do século. Foi esse espírito de beleza ao gosto futurista que vi nas motos que há mais tempo estão em produção no mundo. Na moto em série mais antiga do mundo: A Royal Enfield. 

Conheci, primeiramente, a Classic 500, variação da Bullet, a moto que está em produção de forma ininterrupta desde sua criação. A Classic 500 tinha tudo o que Marinetti resumiu nesse trecho do manifesto. Mesmo que não seja mais bonita que a Vitória de Samotrácia (e a quem discorde de mim nisso), ela possui essa beleza que, à época, parecia nova. Hoje, ainda impacta pela construção e pela elegância das curvas. 

Estudei a moto em detalhes. Li muito do que se diz dela, para o bem e para o mal. Vi defensores apaixonados e violentos detratores, situações típicas num universo de paixões em estado bruto. Mas quis tirar por mim mesmo as conclusões. 

Quase comprei a moto duas vezes, às cegas. Cheguei a ligar para concessionárias, fazer orçamento de um frete de São Paulo para Montes Claros, pensei em raspar as economias, cheguei a falar em pegar empréstimo. Tudo ainda sem ter a habilitação, que viria, no meu sonho apaixonado, depois da moto.

Dois anos se passaram nessa pesquisa e nesse caso de amor. Sei muito - e claro, isso ainda é pouco - sobre a Classic 500. Anotei os defeitos e as reclamações, fui tratado de forma ora afetuosa, ora indiferente, ora sem muito zelo pelos vendedores de muitas concessionárias. Cheguei a desistir pela soma de problemas e pelos desencontros do amor. Coisas de um relacionamento meu e da moto à distância, com intermediários no processo. Decidi que havia gente demais no meio desse relacionamento e de que era preciso viver, ir lá e saber como era a moto pessoalmente, só eu e ela, sem mais ninguém. Assim como nos relacionamentos, a relação com as motos é uma relação de cumplicidade que não deve ter, no meio, esses ruídos dos outros partícipes. Mesmo porque, cada um é de um jeito com uma pessoa, da mesma forma que cada um entende a moto a partir de um prisma. A experiência individual não é universal. Ninguém ama a mesma coisa, do mesmo jeito que ninguém ama a mesma pessoa. Cada um ama o que recebe e entende em si desse contato. 

Nos dias de BH, enfim, conheci a Classic 500. Muito mais bonita ao vivo do que em qualquer foto ou vídeo que vi. Foi emocionante encontrá-la e um vendedor, desses que entendem de moto e de paixões, convenceu-me de dar uma volta nela. 

Foi estranho. Como se tudo aquilo fosse menor do que toda a experiência da espera. Amar à distância a Classic parecia maior do que viver com ela. A moto era de fato tudo o que imaginava, mas os defeitos, esses que a gente só vê de perto e no contato, eram audíveis e novos. E num amor platônico, não caberiam. Andei na moto e não tivemos um bom clima. Foi uma boa conversa, um amor que se espera ser eterno mas que, na verdade, se mostra um caso intenso e curto de uma noite. Não nos amamos como prevíamos, ou mesmo eu não a amei como imaginava. 

Desci da moto meio frustrado e triste. Quebrou-se algo. Na conversa, o vendedor, esse cupido, perguntou o que buscava das motos, o que desejava encontrar. Disse e ele me ofereceu a Interceptor para uma volta. Não tinha muita informação sobre ela, não a conhecia ou a tinha estudado com fiz com a Classic. Talvez por isso, esse contato sem nada prévio, tudo tenha sido tão profundo e novo. 

Walter Benjamin, filósofo da linguagem alemão, um dos mais importantes pensadores do século XX, disse certa vez que só pode amar a humanidade aquele que o faz sem esperança. Não esperar nada é uma base central para amar. E foi isso que se deu comigo e com a Interceptor. Uma relação de amor sem esperança. Uma volta e a moto me seduziu de uma vez. Foi como tomar um soco, descer uma montanha russa! Uma emoção veloz, como é comum a esse tipo de máquina. 

Dali até a chegada tudo aconteceu muito rápido. Fiquei os dias decidindo, na noite de natal falei na moto. Rimos eu e minha mãe do nome do modelo, pensei em um nome para ela e no dia 26, na manhã do dia 26, como naquela primeira manhã depois da euforia do natal com a primeira moto, a criança e o adulto se encontraram na compra da Interceptor. 

Voltei para Montes Claros aos pulos, num misto de alegria e tristeza, por ser minha última viagem com a Chérie. Os dias se arrastaram, voltei a BH no dia 15 de janeiro, de avião, e dia 16, pela manhã, saí da concessionária com ela. A Lôra, Loyra della  Fine, um quase anagrama de Royal Enfield. Minha, para cruzarmos o mundo. Um mundo novo que já havia sido cruzado até ali. Dois universos, duas civilizações. Um novo amor. 







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