O amor se constrói de estrada - os primeiros 500km
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O início de um amor é sempre um pouco estranho. Se pensarmos na metáfora das civilizações estranhas que buscam contatos, os primeiros momentos são os do estágio dos conhecimentos mútuos, feitos sobretudo de gestos. Todo contato com o outro, inicial, é como o contato de duas civilizações sem tradução possível.
Esse contato inicial exige uma empatia mútua. É preciso permitir e ouvir, observar mais que falar. É preciso memória porque os primeiros contatos marcarão o amor pelo tempo, serão sempre recordados de forma cheia de afeto. As marcas iniciais que nunca serão apagadas e que, se mal traçadas, podem levar a um buraco irremediavelmente sem retorno.
Meu novo amor por essa jovem desconhecida que batizei de Lôra passava por esses caminhos. Éramos dois desconhecidos que precisavam de alguma intimidade. Diferente do que foi com Chérie, senhora experiente e cheia de vida, cansada de passar por amores e desamores e, por isso mesmo, objetiva quanto aos contratempos vindouros, tudo nessa nova relação com a Lôra exigia calma.
Primeiro porque a moto tinha maior força e potência. 650 compassados cardíacos batiam dentro daquele peito. É difícil entendê-los de saída. Eu, acostumado a uma vida de dificuldades de amar um único coração que bate, quando acelerado, a mais de 100 compassos, já tinha sido atropelado pelo amor de 250 nos primeiros contatos com a Virago, agora entrava num universo maior.
Gosto de pensar assim os centímetros cúbicos de cilindrada. Não estamos falando de volume. E sim de batimentos! Tanto a Virago quanto a Royal tem dois corações cada. Quanto mais cilindros, mais corações. E esses dois corações da Royal batem nesse tempo de 650 compassos cardíacos.
Se um ser humano com batimentos acima dos 100 por minuto já deixa tudo muito cheio de emoção, uma moto é capaz de fazer estragos. E se quanto mais cilindros, mais corações tem uma moto, isso explica porque elas são tão intensas. É preciso muito mais coração para aguentar a vida a altas velocidades.
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| Matriz de Raposos (MG) |
Os primeiros caminhos nossos foram como aqueles encontros estranhos, as primeiras saídas de um casal. Falas entrecortadas entre vontades de falas. Seguimos primeiro de BH a Nova Lima, cidade de minha avó, onde passei um carnaval memorável nos idos dos meus dezoito anos. Mostrei a ela as ruas por onde os blocos da cidade saem em fevereiro, lembrando que nesse 2021 não teria carnaval possível para nós dois. Parei diante do teatro em que, segundo minha família, minha avó atuou ainda moça, sendo a primeira atriz profissional da cidade, carreira interrompida naqueles difíceis anos de 1940.
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| Estação Ferroviária de Rio Acima (MG) |
Seguimos dali para Rio Acima, cidade de meu bisavô. Não conhecia Rio Acima e foi um lugar nosso, inaugural. Nunca estive lá com mais ninguém a não ser com ela. Visitamos juntos a estação abandonada de trem, essa outra máquina que move paixões.
Na volta, passamos por Raposos e por Honório Bicalho, duas pequenas cidades encrustadas nas montanhas da região metropolitana de Belo Horizonte, com placas de sirene da Vale por todos os lados. Em ambas, barragens como as que se romperam em Mariana e Brumadinho ladeiam as cidades, nesse quadrilátero ferrífero revolvido, de mineradoras arrancando as almas das montanhas.
Mas essa primeira estrada ainda foi pouco para nosso amor juvenil. Foi preciso mostrar a ela meu passado, talvez o lugar de meus mais profundos afetos.
Fiz Letras na Universidade Federal de Ouro Preto, entre os anos de 2000 e 2004. Nesse período, tudo o que sou hoje começou a se desenhar. Naquelas ruas tortas e vielas de Mariana e de Ouro Preto, muito foi aprendido e desaprendido. Muito foi perdido e muito foi achado. Estudar em terreno de garimpo tem esse peso: algo lhe é subtraído para que o ouro lhe seja dado.
Segui com a Interceptor pelas serpentes da Rodovia dos Inconfidentes. Descemos com medo a Serra de Itabirito, o percurso mais tenso - e também o mais bonito - da estrada. Subimos a Cordilheira do Espinhaço entre curvas e diminuição de pressão, uma estrada que conheço como poucas, nas milhares de vezes que a fiz nesses mais de vinte anos.
Chegamos em Ouro Preto em um dia pálido de Janeiro, mostrando que para Ouro Preto o verão não é uma força maior que seu frio. E foi difícil descer de moto ruas que já desci a pé, bêbado e sóbrio, em muitos momentos diversos da minha vida. Ouro Preto é mais íngreme e mais escorregadia em cima de uma moto. Muito mais escorregadia do que quando se anda por ela a pé.
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| Vista de Ouro Preto a partir da Igreja de São Francisco de Paula |
Hospedamo-nos no Antônio Dias. O Antônio Dias de Sinhá Olímpia, de Aleijadinho, do Zé Pereira. A Vila de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, que junto com a Vila de Nossa Senhora do Pilar e de Nossa Senhora do Carmo compunham a Vila Rica do Ouro Preto. Por isso Ouro Preto tem três padroeiras, três igrejas matriz.
Nos dias que se seguiram, deixei a moto no hotel. Senti que traía a tudo andando por ali de moto. Fui à Mariana de ônibus, como tantas vezes. Fui ao ICHS - campus em que estudei - também a pé e lá fiquei pelas horas, buscando as sombras dos amigos pelos corredores vazios. Passei pela casa que vivi por quatro anos, pelos becos em que tudo aquilo, no passado de 20 anos, se deu.
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| Instituto de Ciências Humanas e Sociais ICHS / UFOP. Mariana (MG) |
No meu último dia, desci de moto pela rodovia até Mariana. Constatei, nesse trajeto, o que sempre suspeitei. O largo do Alto da Cruz não permite o trânsito de veículos. A gente o percorre por teimosia. Nunca mais atravesso o Antônio Dias sentido Alto da Cruz de moto. Mas recomendo o caminho, em especial para quem nunca o fez, passando por caminhos não usuais aos turistas em visita à cidade.
Cheguei em Mariana de moto mas não entrei na cidade. Não consegui. Algo me parou. Mariana é a dona dos melhores anos da minha vida. Mariana conhece meus pés. Não sei como a cidade reagiria em ter-me nela sobre rodas. Há nisso um tom de desafeto.
Voltamos de Mariana pela mesma Rodovia dos Inconfidentes, cumprimos os primeiros 500 km com folga, a Interceptor passou pela revisão. Seguimos mais íntimos rumo a Montes Claros. Amor consumado, mas ainda tímido. Foi o Velho Chico quem sacramentou a relação. As águas do Velho Chico que purificam e unem o mundo.







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