Jequitinhona, braço de mar - viagem de 4 a 7/12/2020

O Rio Jequitinhonha - Olhos D'água (MG)
As estradas nos levam a caminhos ancestrais. Os rios, rotas iniciais com seus leitos espraiados, eram guias de caminhos dos andantes pelo mundo. É sempre seguro seguir o leito de um rio a caminho do interior do mundo e de volta ao encontro com o mar. O lugar onde se assentam as civilizações. Um marco de referência humana, o lugar de partida e de chegada.

O Rio Jequitinhonha é um exemplo desse caminho. Suas águas escuras, seu leito sinuoso e lento, suas praias de areia branca. Desce manso pelo Vale, serpenteando as montanhas do Espinhaço, essa cordilheira brasileira única e importante. Mais um rio do Espinhaço que pelo Vale carrega consigo uma tradição de culturas e de costumes, aquilo que em Minas se habituou a chamar de cultura do Vale do Jequitinhonha, seja nas cerâmicas, nos hábitos alimentares, na tradição oral das músicas e dos festejos. O Vale é um mundo dentro de um mundo de situações que encontramos em Minas.

Chérie, conhecedora de rios e desatinos, foi comigo me mostrar e ver o Jequitinhonha de perto. Não foi nosso primeiro rio juntos, já que Januária se banha no Velho Chico todo dia. Mas foi a primeira vez que pude parar às margens do Jequitinhonha, imagem registrada na retina. Impressiona mesmo ver o Jequitinhonha da estrada, em especial depois de passar Senador Mourão, pela estrada que liga Montes Claros à Diamantina. Nas subidas e descidas, entre muitas curvas, uma vez ou outra é possível ver lá embaixo o Vale, o rio escuro que a tudo domina. A estrada é estreita, tem longo percurso de buracos, mas agrada nesses poucos momentos em que se vê do alto da Serra o rio e suas muitas praias brancas. Enfrenta-se uma subida e uma longa descida serpenteada até as proximidades Couto de Magalhães, onde vemos novamente o rio de perto.
Ao lado da ponte sobre o Rio Jequitinhonha

Depois de Couto de Magalhães de Minas, o espetáculo é da Cordilheira do Espinhaço. Um estrada com curvas, muitas noções de voltas que nos abraçam até a chegada em Diamantina. Nesse trecho, cruzei (ou cruzaram por mim, em momentos alternados) com outras motos aproveitando os primeiros dias de dezembro de 2020 para ir à cidade colonial, vindos da Bahia. Motos de todos os tipos e a Virago, tímida, cansando e me cansando morro acima.

A estrada até a chegada tem um gosto de novidade e de plenitude. Da grandeza do mundo frente a nossa condição pequena de passagem. Somos passageiros em tudo, como o Jequitinhonha descendo pelas frestas do Espinhaço, abrindo à força um caminho por milênios. Eu morrerei; se esquecida depois de mim, a Virago desaparecerá, mas o Jequitinhonha estará aqui, como estava antes dos humanos. Grandioso e lento, um rio ladeado de rochas. Um rio diamantino.

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