A Virago e os primeiros destinos - viagem de 28 de novembro de 2020

 

Chérie, minha Virago 250
A Virago 250 chegou aqui no fim de julho. É de 1998, mesmo ano em que quebrei o pescoço - no tal acidente ao qual me referi noutro post. Temos, via de regra, a mesma idade, porque desde o acidente comemoro dois aniversários no ano. 

Chegou no inverno de Montes Claros, numa relação de amor à primeira vista construído ainda antes da chegada da carteira (que veio mesmo um mês depois de a Chérie ocupar seu lugar na garagem). Amor construído porque, à primeira vista, o amor é um projeto de si mesmo. O que amamos é o deslocado de nós, um lugar sem palavra. Porém, é a partir da primeira vista que a narrativa do amor se desenrola, no depois. 

O mês entre a chegada da Chérie e a chegada da carteira foi mês de estudar a moto. Saber como funciona o motor, ver o que precisava ser trocado, o que seria tirado, o nome dos componentes. Além disso, foi tempo de fazer seguro, de fazer cotação de preço de serviço, buscar mecânico.

Um mês com a moto na garagem e não fomos à rua nenhum dia antes da chegada da carteira. A longa espera, os ajustes iniciais, a retirada de uma parafernália que veio do antigo dono. Aos poucos, a moto chegou ao que queria, adaptamo-nos um ao outro. Como num relacionamento em que é preciso deixar para trás o passado de ambos, o que carregamos dos outros que passaram por nós, das estradas que vivemos para criar uma língua comum. Porque os amantes se comunicam num idioma próprio e íntimo, um idioma que tem um país particular, uma cultura particular, um mundo íntimo próprio de códigos, acordos e condutas. Todo relacionamento é uma civilização que, quando nasce, traz consigo os destroços da civilização antiga. É preciso decidir sempre o que, daí, preservar. 

Ficamos nos meses de setembro/outubro na construção da nossa civilização. Testamos os idiomas conhecidos, em vão. Buscamos novos vocábulos, estabelecemos leis e condutas. Uma disciplina de aprendizado: ela aprendendo a lidar com um iniciante e eu confiante de que a moto me ensinaria o que não sabia. Usei como exemplo o que diz Saramago n'O conto da Ilha Desconhecida. No conto, um "homem do barco" vai ao castelo do Rei pedir um barco para ir em busca da Ilha Desconhecida. Depois de muito insistir e argumentar, o Rei lhe faz a vontade e lhe dá um bilhete que permitia pegar o barco no cais. Conversando com o responsável pelos barcos, é perguntado se já havia navegado na vida. Ao responder que nunca havia saído de terra, o homem do barco acaba ficando com uma velha embarcação, uma caravela, que ensinaria a ele a navegar, já que tinha muitos anos de mar. A Virago, quando chegou, era a velha caravela e eu, o inocente "homem do barco". 

Marinheiro de primeiras estradas, com o mar do mundo pela frente, passei os primeiros momentos verificando a embarcação. A moto colocou seus limites, explicou seu desenvolvimento, mostrou seus problemas e cuidamo-nos mutuamente por aqueles meses de ruas. 

Caímos mesmo na estrada indo para Januária, destino que, virtualmente, seria o nosso no mundo depois da pandemia, como o transporte para o trabalho que tanto precisava. Mas Chérie já é uma moça de idade madura, que reclamou com o corpo tanto quanto eu com o meu os caminhos pelo sertão. Chegamos da primeira estrada acabados. 

Da viagem a Januária ficaram algumas lições. A primeira é de que um corpo é sempre um corpo. Se há muito parado, ele revelará a você sua existência em dores e lugares até antes ignorados pela sua natureza. A segunda é de que uma moto é um ser vivo. Como um ser vivo, é preciso intimidade e convício para o conhecimento, porque ela nunca acorda do mesmo jeito que dorme. Às vezes não basta ajuste mecânico, é preciso sensibilidade. Ela reclamará atenção e cuidado, mas colocará de forma muito marcada o que ela aceita e o que não. 

Por fim, a civilização que nasce do amor de um ser humano com uma moto se adensa em linha diversa daquela que une os humanos. É uma relação de intimidade que se aprofunda com a estrada. A última é que uma moto é, na verdade, um conjunto de motos. É uma na cidade, comedida e tímida, ganhando esquinas sem muita pressa. É outra na estrada: livre, solta e entregue. É como estar com uma pessoa na rua e outra no quarto, na intimidade do sexo. A cama de uma moto é a estrada. É onde ela se solta entregue, onde a adrenalina toma o ar, onde o prazer é intenso e onde ela chega a seu limite. Pode matar. Mas é o risco que nos mantém ligados a ela. O risco que nos mostra a potência da vida. 

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